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Almeida Restaurada O Novo Testamento exatamente como foi traduzido e publicado por João Ferreira de Almeida, Theodorus Zas e Jacobus op den Akker em 1681 / 1693.
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A história da tradução do Novo TestamentoSabe-se que Almeida, desde a adolescência e durante o tempo em que se preparava para o sacerdócio, sentiu uma grande necessidade de oferecer aos cristãos de língua portuguesa as Escrituras Sagradas na sua própria língua. E é sabido, também, ele começou, aos 16 anos, traduzindo porções da Bíblia espanhola e, mais tarde, partes da tradução latina de Beza. Essas traduções não chegaram a ser impressas, mas parte delas foi distribuída em cópias manuscritas. Contudo, o grande projeto de vida de Almeida era traduzir a Palavra diretamente das línguas originais, hebraico, aramaico e grego. Então, por volta de 1660, ele finalmente começou a Bíblia para o português, começando pelo Novo Testamento. Tomando como base o chamado "Textus Receptus", isto é, um compilado de manuscritos gregos aceitos geralmente aceitos como os originais mais confiáveis. Nos dois séculos precedentes, vários linguistas e teólogos europeus haviam feito compilações dos manuscritos gregos do Novo Testamento e publicado pela imprensa, e essas publicações, de diversos compiladores e em diferentes épocas, mantinham uma conformidade com a maioria das centenas de manuscritos mais antigos em grego, de sorte que os textos resultantes eram universalmente aceitos e, por isso, chamados de Textus Receptus, ou Texto aceito ou recebido. E foi um desses compilados, organizado por Jansson em 1639, que Almeida tomou como fonte, além de consultar a tradução espanhola e italiana. Almeida estava imbuído da importância de fazer uma tradução honesta, a mais próxima possível do grego, que não omitisse nem acrescentasse quaisquer palavras, nem distorcesse o sentido original. Mais tarde, Almeida escreveria: “A mesma Escritura Sagrada, por ser a Palavra de Deus divinamente inspirada, tem de si mesma bastantíssima autoridade e contém suficientemente em si toda a doutrina necessária para o culto e serviço de Deus. É, portanto, que o dever de todo cristão é ler, meditar e esquadrinhar a S. Escritura, como Deus nosso Senhor também manda...”. Assim, em 1670, Almeida comunicou ao Concílio holandês em Batávia que sua tradução do Novo Testamento estava pronta e solicitou uma reunião com alguns representantes desse Concílio, para “verificar a sua tradução com o fim de imprimi-la” (Hallock; Swellengreble, 2000, p. 102). O Concílio eclesiástico não lhe respondeu de imediato. É possível que eles não estivessem exatamente entusiasmados com uma tradução que não tivesse como fonte a Bíblia na tradução holandesa, porque levaram 6 longos anos para decidirem sobre pedido de Almeida! |
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Para entendermos os possíveis motivos das dificuldades que Almeida enfrentou para obter aprovação do Concílio precisamos abrir um parêntese e ampliar nossa visão para o contexto histórico da época. Durante os séculos 16 e 17, a Holanda mantinha relações amigáveis com Portugal, mas vivia em pé de guerra com a Espanha. Em 1580, quando os reinos de Portugal e Espanha foram unificados, a guerra com a Holanda passou a ser também de Portugal. Três anos antes de Almeida nascer, isto é, em 1624, os holandeses invadiram a cidade de Salvador, na Bahia, e a ocuparam em menos de 24 horas. Salvador era a capital do Brasil, colônia de Portugal. A cidade esteve sob o domínio holandês por quase um ano, até os invasores serem derrotados e expulsos pela resistência de brasileiros e portugueses, em 1625. Doze anos depois, em 1637, os holandeses invadem novamente o nordeste do Brasil, e desta vez tomam a cidade de Olinda, no Pernambuco. De 1637 até 1644, Maurício de Nassau governou a região de Pernambuco e realizou transformações notáveis na infraestrutura e no sistema de produção açucareira, além de patrocinar atividades artísticas e científicas, trazendo para a cidade cientistas e naturalistas europeus. Eram evidentes o sucesso e a superioridade da colonização holandesa em relação à colonização portuguesa. Por esse motivo, o reino de Portugal, mesmo depois de se ter separado da Espanha, o que se deu em 1640, fez uma grande investida e novamente expulsou os holandeses. |
Folha de rosto da impressão de 1681, feita na Holanda, e que foi inutilizada |
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O esforço para retomar a parte perdida da colônia do Brasil se justificava, também, pelo fato de que, àquela altura, os holandeses, dinamarqueses e ingeses já haviam tomado de Portugal muitas colônias da Ásia. Havia, por conseguinte, essa rivalidade, com naturais conflitos e ressentimentos entre portugueses e holandeses, e isso certamente se refletia nas colônias de ambos os países no mundo todo. Além da rivalidade política e econômica, havia também uma rivalidade cultural ou linguística entre os idiomas português e holandês nas colônias asiáticas. Após ter tomado do império lusitano as colônias asiáticas, o governo holandês tinha o maior interesse em valorizar sua língua e diminuir importância da língua portuguesa, dos antigos colonizadores, pelo que reforçavam o emprego da língua holandesa nas colônias recém-conquistadas. Isto tudo deve ter influenciado, provavelmente, na posição da Igreja holandesa, que, ao mesmo tempo em que apoiava uma tradução do Novo Testamento em português para o bem da evangelização dos colonos, os quais eram ainda em sua maioria lusófonos, também insistia que o holandês fosse a língua do ensinamento religioso lá. Isto, talvez, explique o motivo pelo qual eles foram tão relutantes em apoiar o trabalho de Almeida. E, mais tarde, quando finalmente autorizaram a impressão, esse mesmo contexto pode ter influenciado no papel que eles atribuíram aos revisores dessa obra. |
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Devemos ter empatia pelo grande esforço despendido por Almeida, a pressão que deve ter sentido no meio de interesses conflitantes, os quais, em última análise, somente prejudicavam a materialização de seu sonho, que era a Palavra de Deus em sua língua natal. Somado ao fato da rivalidade nacional, os membros do Concílio da igreja holandesa na Indonésia deviam possivelmente ter suas dúvidas quanto à capacidade de Almeida, talvez por ter ele se formado na colônia e não nas universidades da Holanda, assim também pela obstinação dele de traduzir o Novo Testamento diretamente do grego e não do holandês. Assim, por mais que fossem irmãos na fé e colegas do clero, essa divergência influía, sim, e causava certa má vontade do Concílio em relação à tradução de Almeida. Possivelmente por isso é que levaram seis anos para tomar uma decisão em relação ao seu pedido. Finalmente, em 1676 as autoridades da igreja decidiram formar uma equipe de seis revisores incumbida de verificar a tradução de Almeida, sendo três membros na Indonésia, que eram o Rev. Cornélio Lindius, o Rev. Theodore Zas e Augustibus Thorton, e três membros na Holanda, que eram os srs. Bartholomeus Heyen, Joannes de Vooght e um terceiro, judeu português e cristão novo. Um deles, Bartholomeus Heyen, falava fluentemente o português, pois tinha nascido no Brasil, na Paraíba, em 1644, e emigrado para a Holanda, onde estudou Teologia. |
Folha de rosto da impressão provisória, feita na própria Batávia, possivelmente em 1682 na Batávia. Continha a errata para a versão de 1681, de Amsterdã.
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O Concílio da Igreja Reformada holandesa “sempre procurava usar estes revisores para exercer a sua autoridade e controle sobre o trabalho do tradutor, para que se pudesse assumir a responsabilidade por essas traduções, recomendando-as às autoridades eclesiásticas ou seculares” (Hallock; Swellengreble, 2000, p. 101). Iniciada a revisão, Almeida acabou tendo alguma divergência séria com os revisores na Indonésia, e em 1678 ele decidiu passar por cima das autoridades eclesiásticas locais e solicitou a publicação diretamente às autoridades da Igreja na Holanda, escapando, assim, da interferência dos revisores na Batávia. Essa atitude de Almeida provocou acalorados debates com o Concílio na Indonésia, que se queixou da insubordinação do português. Mas, a despeito dessa divergência, as autoridades na Holanda decidiram, afinal, autorizar a publicação, porém do texto como foi revisado pela comissão revisora de lá, ou seja, por Bartholomeus Heyen, Joannes de Vooght e o cristão novo. E os revisores, trabalhando obviamente sob a diretriz da Igreja Holandesa, começaram a revisão. Qualquer que tenha sido a diretriz recebida, ou o motivo real por trás, os revisores entenderam que deviam harmonizar a tradução de Almeida com a tradução holandesa. Fizeram isso e terminaram a revisão em menos de um ano. Assim, em 1681 foi impresso o Novo Testamento, cujo título completo foi: "O Novo Testamento Isto he o Novo Concerto de Nosso Fiel Senhor e Redemptor Iesu Christo traduzido na Língua Portuguesa pelo reverendo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Sancto Evangelho nesta cidade de Batávia, em Java Maior". Há biografias que dizem que a obra foi impressa na Batávia, mas a folha de rosto diz: “Em Amsterdam, Por Viuva de J. V. Someren, Anno 1681”. Os exemplares costumavam ser distribuídos à medida que ficavam prontos. Então, em 1682, quando a impressão ainda estava em andamento, os primeiros exemplares que ficaram prontos chegaram às mãos de Almeida. Infelizmente, quando o tradutor folheou a obra recém-impressa, verificou com grande pesar que havia muitíssimas falhas no texto, sendo algumas tão graves que deturpavam o sentido da frase e comprometiam a sua tradução. Essas alterações provocaram um transtorno tão sério que as autoridades eclesiásticas chegaram à conclusão de que a obra, como ficara, tornava-se imprestável, e então decidiram que os volumes já impressos fossem destruídos e fosse preparada uma nova edição. |
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Assim, a parte da tiragem que ainda estava na Holanda foi destruída lá mesmo. No entanto, alguns ministros na Indonésia sugeriram que se aproveitasse uma parte dos exemplares, sendo as falhas corrigidas à mão e fosse distribuída assim mesmo, com as emendas à tinta. Almeida mandou imprimir, na Indonésia mesmo, uma folha de rosto adicional, com uma errata de 150 passagens que foram corrigidas a tinta. Consta que em 1º de janeiro 1683 Almeida divulgou na Batávia uma lista com mil erros que tinham sido introduzidos na Holanda, informando que tais erros se deviam ao fato de a impressão ter sido feita "em ausência do tradutor", ou seja, uma queixa velada de que, se tivessem deixado que ele mesmo supervisionassem a impressão, tais erros não teriam ocorrido. Há uma linha de pensamento que entende que as modificações feitas pelos revisores ingleses foram de ordem doutrinal. Todavia, quando se examina cuidadosamente essa malfadada impressão de 1681, comparando-a com a que veio a ser feita depois, em 1693, observa-se que as falhas foram de natureza principalmente tipográficas ou ortográficas. Não se constata outro tipo de falha senão esse. |
Página inserida na impressão provisória (1682?), da Batávia, "entretanto (enquanto) que na segunda impressão, que com o favor divino à luz há de sair, tudo emendado venha". |
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Nota-se, por exemplo, que algum dos revisores holandeses entendeu que devia colocar cedilha em quase todas as ocorrências da letra “c”; por exemplo, “escureçiaõ”, “mereçeo”, “entonçes” e assim por diante, além de acentos agudos distribuídos fartamente. Aliás, tais erros parecem ter sido causados pelo tipógrafo holandês, que lidou com uma língua que não era sua. Isto não isenta, porém, os revisores de sua responsabilidade, pois, nesse caso, deveriam ter examinado as provas de cada composição. De qualquer maneira, não parece razoável imaginar que os erros introduzidos fossem aproximar a tradução de Almeida da versão holandesa. O que não se nota, porém, são divergências que comprometessem o sentido. Quatro exemplares dessa primeira edição do Novo Testamento sobreviveram. Uma está na Biblioteca Real de Haia, na Holanda; duas estão Lisboa, na Biblioteca Nacional, e uma em Londres, na Biblioteca Britânica. Dois desses têm as correções indicadas por Almeida. Uma cópia de Lisboa e a de Londres têm essa folha de rosto com a errata, a lista de 150 passagens que foram corrigidas a tinta. Os outros dois exemplares são os que escaparam da destruição, sem as correções. Esse é o motivo histórico comprovado da inutilização da primeira edição do Novo Testamento de Almeida. É importante enfatizar isso porque um biógrafo brasileiro sugere ou imagina outras razões da rejeição da obra de Almeida. Ele acha que talvez a tradução de Almeida tenha ficado num estilo muito pobre, pelo fato de o autor estar vivendo há tanto tempo distante de Portugal, ou talvez a tradução tenha ficado muito literal, por ter seguido a tradução holandesa e a espanhola de Varela. |
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Felizmente, outro biógrafo, Jairo Cavalcante, em vez de fazer suposições, se deu o trabalho de analisar a tradução de Almeida, comparando-a com várias edições do Texto Recebido existentes no século XVII. Em sua tese para a Universidade Metodista de São Paulo, em 2013, Jairo confirmou e demonstrou em um quadro comparativo que, de fato, a tradução de Almeida veio do texto grego de Jansson, de 1639. Em última instância, por ser fluente em holandês, teria sido imensamente mais fácil para Almeida traduzir diretamente daquela língua do que ter de lidar com o grego. E foi justamente porque a sua tradução não seria do holandês que as autoridades eclesiásticas hesitaram tanto em aprovar a impressão. Quanto à alegação de que ficou “muito literal”, embora isto seja considerado uma fraqueza aos olhos da filosofia crítica de tradução de hoje, é, de fato, um elogio à obra de Almeida, do ponto de vista dos que prezam a fidelidade da tradução verbal. Enfim, como a deturpação do texto era um problema sério, o Concílio holandês resolveu mandar revisar a edição e fazer uma nova, toda corrigida. Eles nomearam uma comissão revisora local (Theodoro Zas e Jacob op den Akker), mas, dessa vez, tiveram a prudência de incluir o próprio Almeida. No entanto, o Concílio não deixa de dar um “puxão de orelha” em Almeida, pois lhe impõe a obrigação de manter o presbitério ou Concílio informado de suas atividades. |
Folha de rosto da edição definitiva, impressa em 1693 na Batávia. Incorpora as erratas feitas na edição de 1681, e acrescida de referências e outras alterações feitas na edição de 168x, talvez 1682.
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Ocorre que, enquanto se prolongava a publicação do Novo Testamento, Almeida não estava parado, mas fazia a tradução do Velho Testamento a partir do texto massorético. Assim, ficava claro que o presbitério estava em parte aceitando a independência de Almeida, mas, em parte, restringindo-o, para que não se pusesse a fazer o mesmo em relação ao Velho Testamento. Os ânimos se acalmaram e os trabalhos para uma nova edição do Novo Testamento continuaram. Mas Almeida não chegou a ver a nova edição sair do prelo, pois faleceu em 1691, e a nova edição só saiu em 1693. E, quando morreu, tinha traduzido o Velho Testamento até Ezequiel 48:21. Coube, então, ao colega Jakobus op den Akker a incumbência de completar a tradução, o que aconteceu em 1694. A Bíblia estava toda traduzida, mas só seria publicada depois de vários anos. As primeiras publicações das traduções de Almeida Em resumo, foram as seguintes as primeiras publicações do Novo Testamento traduzido por Almeida: |
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1681 - Primeira edição, 558 páginas, com o seguinte título: “O Novo Testamento, Isto he, Todos os Sacro Santos Livros e Escritos Evangelicos e Apostolicos do Novo Concerto de nosso Fiel Senhor Salvador e Redemptor IESU CHristo, Agora traduzido em Portugues Pelo Padre Joaõ Ferreira A. D’Almeida, Ministro Pregador do Sancto Evangelho. Com todas as Licenças necessárias. Em Amsterdam, Por Viuva de J. V. Someren. Anno 1681”. No verso da folha de rosto: “Este S.S. Novo Testamento he imprimido por mandado e ordem da Illustre Companhia da India Oriental, das unidas províncias e com conhecimento da Reverenda Classe da cidade de Amsterdam, Revisto pelos Ministroes Preegadores do santo Euangelho, Bartholomeu Heynen, Joannes de Vooght.” O texto distribuído em uma coluna, com notas explicativas na lateral e não tinha referências remissivas. 168x (1682?) - Uma impressão provisória, que era a de 1681 refeita em grande parte e impressa possivelmente na Batavia. Tinha o seguinte título: “O Novo Testamento, Isto he, O Novo Concerto de nosso Fiel Senhor e Redemptor IESU Christo. Traduzido na Lingua Portuguesa.” O verso da folha de rosto repetia os mesmos dizeres. Tinha, em seguida, duas páginas com a “Advertencia a o Pio Leitor” sobre as falhas da primeira edição e um “Indice dos erros que nesta Impressaõ com a pena vaõ emendados”. |
Folha de rosto da edição de 1712, impressa em Amsterdam por mandado do rei Frederico IV da Dinamarca. |
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Nota-se que, além da mudança da folha de rosto e a inclusão das páginas da advertência, algumas páginas internas (o cadernos) foram reimpressas, como se nota, por exemplo, pela página 2, na qual a nota explicativa da margem da página não é a mesma que na versão de 1681. Esta e outras diferenças menores detectadas demonstram que se tratou de uma reimpressão e não, simplesmente, correção a pena. Aparentemente, algumas páginas foram reimpressas e outras mantidas. Foi em um exemplar dessa segunda impressão que Almeida (ou outro revisor) fez centenas de correções a pena. 1693 – A terceira impressão; 598 páginas. Esta, reconstituída pelo próprio Almeida e pela equipe nomeada pelo Concílio em Batávia, deve ser considerada, de fato, a primeira edição definitiva, já que a primeira impressão foi rejeitada ou precariamente emendada. Esta foi impressa em outra gráfica, agora na própria Batávia, e tinha o seguinte título: “O Novo Testamento, Isto he, Todos os Livros do Novo Concerto do nosso fiel Senhor e Redemptor Jesu Christo, Traduzido na Linga Portuguesa pelo Reverendo Padre Joaõ Ferreira A. D’Almeida, Ministro Pregador do Sancto Euangelho n esta cidade de Batavia em Java Mayor. Em Batavia Por João de Vries impressor da Illustre Companhia e desta nobre cidade. Anno 1693”. O verso da folha tinha: “Esta segunda impressaõ do S.S. Novo Testamento emendada e na margem augmentada com os concordantes passos d’a Escritura Sagrada a luz sahiu por mandado e ordem d’o Supremo governo da Illustre Companhia d’as Unidas Provincias na India Oriental, e foi revista com a aprovaçaõ d’a Reverenda Concregaçaõ Ecclesiastica d’a cidade de Batavia, Pelos ministros Pregadores d’o Sancto Euangelho na Igreja da mesma cidade Theodorus Zas, Jacobus op den Akker”. Como o título diz, essa versão teve o acréscimo das notas de referência à margem, chamadas concordantes passos’. Apesas das evidências claras de que houve três edições do Novo Testamento, algumas pessoas têm afirmado que foram duas edições: a primeira, de 1681, e reimpressão de 1693. Mas o fato que foram, realmente, três edições: a de 1681; outra, de algum tempo entre 1681 e 1691 (talvez 1682); e a terceira e definitiva, de 1693. Isto pode ser constatado facilmente quando se comparam as folhas de rosto entre si e, como se vê nas imagens acima, e, também, páginas internas das edições. Nelas se veem diferenças em termos de substituição de palavras, tipografia e formato de notas marginais e referências cruzadas. De 1681, original, impressa em Amsterdã, Holanda:
168x, corrigindo a de 1681, impressa na Batavia, Indonésia:
1693, edição definitiva, impressa na Batavia, Indonésia:
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1712 – A quarta impressão. 426 páginas. Uma reimpressão da edição de 1681, com o texto em duas colunas. O título foi: “O NOVO TESTAMENTO, Isto he, Todos os Sacrosantos Livros e Escritos Euangelicos e Apostolicos do Novo Concerto de Nosso Fiel Salvador e Redemptor JESU CHRISTO: Traduzido em Portugues pelo padre Joam Ferreira A D’Almeida, Ministro Pregador do Sancto Euangelho. Com todas as licenças necessárias. Em Amsterdam, Por Joam Crellius, 1712.” Nessa edição foram excluídos os subtítulos de cada capítulo, inseridos pelo tradutor, assim como os cedilhas em quase toda letra c, como na edição de 1681. Foram mantidas as notas explicativas à margem, mas não tinha as correções indicadas em errata por Almeida, na edição provisória de 1682(?). É de se perguntar o motivo por que a edição de 1712 ignora as correções sugeridas na edição de 1682 e sugeridas na de1693, e reproduz a edição de 1681. O fato é que essa edição foi impressa em Amsterdã por outro editor, Joam Crellius, por ordem do rei da Dinamarca, Frederico IV. O rei tinha interesse na ampliação do domínio dinamarquês na Ásia, especialmente na Índia e lá se falava ainda o português. E havia ministros missionários da Igreja dinamarquesa em Tranquebar, na Índia, que não tinham a Palavra para ensino da congregação. O que pode ter acontecido é que, daqueles exemplares que foram salvos da destruição em 1681, alguns, mesmo com defeitos, foram parar nas missões dinamarquesas na Índia. Então esses missionários pediram ao rei Frederico que se fizesse cópia da edição de 1681. Talvez eles nada soubessem de uma edição mais recente, de 1693, nem das falhas da edição de 1681, a única que tinham em mãos. Assim, a pedido deles, o rei dinamarquês ordena a impressão na gráfica de Joam Crellius, em Amsterdam. Não sabemos se levaram em conta uma autorização do tradutor ou direitos autorais de tradução. Essa impressão foi feita a expensas da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, da Dinamarca. Parece que a única cópia disponível ao público hoje encontra-se na Biblioteca Real de Copenhague. O Velho Testamento Sabe-se que Almeida traduziu quase todo o Velho Testamento, chegando a Ezequiel 48 quando faleceu, em 1691, e que seu colega, o Rev. Jacobus op den Akker se incubiu de completar a tradução da parte restante. Mas a Igreja holandesa não tomou nenhuma providência para a impressão desses livros. Mas, por algum motivo, a tradução do Velho Testamento por Almeida e Akker despertou o interesse dos dinamarqueses, e estes providenciaram a primeira impressão em língua portuguesa do Velho Testamento, ainda que parcialmente e num espaço de 38 anos. Entre 1713 e 1718 – O Pentateuco é publicado em partes, por iniciativa dos mesmos missionários dinamarqueses de Tranquebar. Em 1721 ou 1740 – Os Salmos, traduzidos por Almeida, são publicados pelos dinamarqueses. Em 1738, os Livros históricos, idem. Em 1744, Jó a Cantares, idem. Em 1751, os Profetas maiores, idem. Na Batávia, em 1748 a 1753, a missão holandesa finalmente publica a Bíblia toda, tradução de Almeida, em dois volumes. O primeiro, contendo os livros de Gênesis a Ester, em 1748, e o segundo, com os Salmos até Malaquias, em 1753. Na folha de rosto dessas edições constam os nomes dos dois tradutores, João Ferreira de Almeida e Jakobus op den Akker, seu sucessor. Em 1760, os dinamarqueses de Tranquebar mandam imprimir uma edição contendo somente os 4 evangelhos e, em 1765, o Novo Testamento completo. Neste ponto temos de fixar um marco na história da Bíblia de João Ferreira de Almeida, porque, a partir dessa época – mais exatamente em 1773 – o texto original começa a ser publicado com certas mudanças que vão gradativamente modificar o texto original. Além disso, a tradução de Almeida começa a ser alvo de críticas negativas até por parte de editores ou revisores. Em 1773 foi impressa uma nova edição do Novo Testamento, revisada pelo pastor holandês Muritz Mohr. Mohr informa que o processo de revisão e impressão das provas da quarta edição do Novo Testamento de Almeida foi um serviço que “necessariamente devia custar muy trabalho, para ser executado como convém” e, assim, “a correçaõ dele e das provas foi feita por mim só, o que durou nove anos” (MOHR, 1773, p. 9, 11). Em 1819 foi impressa pela primeira vez a Bíblia de Almeida num único volume. Publicada pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, de Londres. Foi impressa na gráfica de R.E.A. Taylor, Londres. Revisa muito pouco o texto original da Almeida 1773 (basicamente apenas quanto a erros tipográficos e de ortografia e quanto a colocar alguns versos em “ordem mais direta”). Em 1837 a Trinitarian Bible Society (TBS ) patrocinou a revisão da Bíblia de Almeida, sendo o Rev. Thomas Boys, de Cambridge, o encarregado do projeto. A revisão completa foi concluída em 1844, e a impressão se deu em Londres, em 1847. Em 1840/1848, 1850 a Sociedade Bíblica Americana publicou a primeira revisão um pouco mais significativa da Almeida, alterando ordem das palavras e atualizando a grafia. Feita pelo capelão inglês E. Whitely e recebeu o nome Almeida Revista e Emendada. Em 1860 é publicada uma nova edição pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. Em 1869/1872 foi publicada pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em Londres, a versão Almeida Revisada e Reformada. Em 1874/1875 foi publicada, pela Sociedade Bíblica Americana, a Almeida Revista e Correcta, resultante de projeto liderado pelo português João Nunes Chaves, que corrigiu a ortografia e outros “erros” da versão anterior. (Grafamos “erros” entre aspas não por ironia, mas porque não sabemos o que revisor de fato entendia como tal). Em 1879, a Sociedade de Literatura Religiosa e Moral, do Rio de Janeiro, publicou A Primeira Edição Brasileira do Novo Testamento de Almeida. Em 1894, foi publicada, pela Sociedade Bíblica Americana ou na Inglaterra, para uso em Portugal, a Almeida Revista e Corrigida. Até aqui, todas as Bíblias ‘protestantes’ em português eram basicamente fiéis ao Texto Recebido, isto é, quando faziam as revisões, os revisores consultavam sempre os mesmos textos gregos usados por Almeida. A partir dessa época, porém, começou a prevalecer no mundo uma filosofia de tradução patrocinada por dois ingleses, Westcott e Hort. Por volta de 1880, esses senhores fizeram uma nova transcrição do texto grego a partir de outro conjunto de manuscritos, que nenhum dos antigos linguistas havia utilizado desde o século XVI. Dentre os "novos" manuscritos que os ingleses utilizaram, destacaram-se dois, que tinham sido descobertos pouco depois de 1840. Em seu trabalho, Westcott e Hort desenvolveram várias teorias de tradução, afirmando, por exemplo, que os manuscritos mais antigos eram melhores, só pelo fato de serem mais antigos. Eles não levaram em conta que também na antiguidade havia manuscritos que eram cópias mal feitas. Este e outros posicionamentos deles favoreceram a teoria de tradução dinâmica, isto é, de que se devem traduzir ideias, e não palavras, e tendo em mente o receptor, e não tanto o emissor da mensagem. O conjunto de manuscritos em que eles se basearam foi chamado de Texto Crítico, em oposição ao conjunto chamado Texto Recebido. Mais adiante abordaremos a diferença entre esses dois conjuntos.
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Almeida Restaurada - CNPJ 33.048.944/0001-98 |